Como a produção de cortiça entrou na história da sua família?

Nossa família tem um histórico no ramo agrícola que começou com nosso bisavô Domingos Joaquim da Silva.
De origem humilde, emigrou para o Brasil no final do século XIX onde fez riqueza no setor de material de construção, mais precisamente madeira. Voltou para Portugal e diversificou seus negócios, investindo na produção de azeite e de vinho, entre outros. Seu filho, nosso avô, Joaquim, deu continuidade aos negócios do pai. Após a Revolução dos Cravos em 1974, grande parte dos negócios em Portugal foi nacionalizada, inclusive as empresas de produção de vinho e de azeite da família.

No fim da década 90, meu avô deparou-se com uma excelente oportunidade: adquirir um montado de sobro – como se chama a floresta de árvores de cortiça, em Montemor-o-Novo, na região o Alentejo. Era a possibilidade de voltar a investir no ramo agrícola que já tinha feito parte dos negócios da família. Adquiriu a herdade juntamente com meu pai, Joaquim, e meu tio. O Alentejo é a região de produção de cortiça em Portugal. Os sobreiros, espécie de carvalho, de cujo tronco se extrai a cortiça, ou seja, a casca externa, já tinham idade e, portanto, a herdade já estava pronta para produzir. A herdade, além do montado de sobro, tem uma torre, que faz parte do patrimônio histórico de Portugal e data do fim do período medieval, com elementos arquitetônicos do período manuelino e influência mudéjar.

 

A torre que dá nome a propriedade. Joaquim Campos da Silva, pai de Adalgiza e Gabriela

 

“Como a cortiça é feita a partir da casca do tronco do sobreiro, é ambientalmente sustentável: a árvore é preservada e o material produzido é 100% natural, reciclável e biodegradável.”

 

O que faz da cortiça um material tão especial?

A cortiça é ecológica, durável, macia, resistente à agua e flutuante. É também um isolante natural e retardador de fogo. Como a cortiça é feita a partir da casca do tronco do sobreiro, é ambientalmente sustentável: a árvore é preservada e o material produzido é 100% natural, reciclável e biodegradável. Na verdade, o processo de retirada da casca do tronco aumenta a longevidade do sobreiro, fazendo da árvore uma fonte renovável de matéria-prima.
A cortiça é o melhor material para a produção de rolhas de vinho, principalmente aqueles de guarda. Por ser um material inerte, resiliente, com elasticidade, aderência, longevidade e permeabilidade, adapta-se perfeitamente às variações de temperatura e pressão às quais está sujeito o vidro das garrafas de vinho. Além disso, as características da cortiça permitem uma micro oxigenação do vinho, o que contribui para sua evolução na garrafa. Também é um material extremamente leve, o que lhe dá vantagens na utilização como isolante térmico e acústico.

 

 

O que envolve o processo de produção da cortiça? Como ele funciona?

A natureza se encarrega da maior parte do processo de produção. As árvores da espécie Quercus Suber L., uma vez plantadas, demoram cerca de 25 anos para começar a produzir cortiça, mas só a partir do terceiro descortiçamento
a árvore produz cortiça com espessura adequada para a produção de rolhas. Os dois primeiros descortiçamentos produzem cortiça mais fina que é destinada à produção de placas para isolamento acústico, entre outros. O tronco do sobreiro é descascado manualmente. Um machado especial é utilizado por trabalhadores experientes, que o têm que usar com muito equilíbrio, perícia e destreza física para não ferir a árvore. Se o tronco for danificado, o sobreiro poderá secar até morrer. Ultimamente, vem crescendo a colheita mecanizada, com uma máquina que corta a cortiça, mas a manual ainda é preponderante.

A colheita começa normalmente em maio e estende-se até agosto. O início e o fim variam em função da quantidade de chuvas e das temperaturas de cada ano. Nesse período, os trabalhos começam cedo, junto com o alvorecer.
O tirador, com seu machado, vai fazendo pequenos sulcos na parte externa do tronco, desenhando um retângulo que se soltará em uma prancha. Quando percebe que esta já está quase solta, puxa-a. Um barulho parecido
com o de uma porta rangendo de leve se ouve quando a prancha se despega da árvore. A cortiça é levada por um caminhão para um pátio onde é empilhada e fica estocada até a venda. Os trabalhadores levam suas marmitas para almoçar no campo e os trabalhos encerram-se no meio da tarde. A janela da colheita vai se fechando à medida que o verão avança, pois a casca vai perdendo umidade e a cortiça começa ficar quebradiça, dificultando sua retirada.

O tronco fresco tem um tom alaranjado, o que dá ao campo alentejano um lindo contraste entre o verde das folhagens e do pasto, o marrom dos troncos não descascados, o laranja dos troncos frescos e o azul do céu.

O sobreiro precisa de 9 anos para reconstituir a parte externa de seu tronco. Portanto, a colheita tem que respeitar este intervalo de tempo. O último número do ano da colheita é marcado no tronco da árvore com tinta branca para permitir o controle. Nossa herdade tem três ciclos de colheita. O último foi em 2013 e o próximo será em 2019.

 

 

Qual é a rotina diária da fazenda?

No nosso caso, como a nossa fazenda tem árvores antigas que já produzem cortiça, não há uma grande rotina de plantação. A vida média de um sobreiro é de 200 anos e ele pode ser descortiçado cerca de 17 vezes. O sobreiro produz um fruto, a bolota, que ao cair no chão, semeia naturalmente o solo e permite a regeneração do montado
de sobro. Algumas de nossas árvores já estão chegando próximas do fim de suas vidas. Nos últimos anos, fizemos
o plantio de novas mudas para mantermos o ciclo e a produção.

Quais são as utilidades finais da cortiça?

A principal utilidade da cortiça é a produção de rolhas de vinho ou de champanhe. Os vinhos de mais longa guarda exigem cortiças de excelente qualidade com pouquíssimas falhas e provenientes de placas de espessura uniforme. Além disso, a cortiça é um excelente isolador acústico e material corta-fogo, sendo usada na indústria da construção, aeronáutica e aeroespacial. Ultimamente vem crescendo o uso da cortiça em objetos de decoração, móveis e na moda (bolsas e adereços).

Nós produzimos em nossa herdade, apenas as placas de cortiça. Vendemos nosso produto para a indústria que transforma a placa em um produto para consumo (rolhas, placas de isolamento, revestimento, aglomerado de cortiça). A cortiça de nossa herdade usada para a confecção de rolhas de vinhos e de champanhe. Estas últimas são feitas com um disco fino da placa de cortiça no topo e o restante da rolha é feito com um aglomerado de cortiça moída. As rolhas de alguns vinhos também são feitas desta forma – têm dois discos de placa de cortiça nas extremidades e o meio é de aglomerado de cortiça. Nos últimos anos, fizemos o plantio
de novas mudas para mantermos o ciclo e a produção.

 

“A expansão do mercado vitivinícola é ao mesmo tempo uma oportunidade e um desafio. É um desafio porque um sobreiro leva 25 anos para dar sua primeira colheita, e o mundo da atualidade tem pressa.”

 

Quais são os desafios que envolvem a indústria de cortiça?

Um dos principais desafios da atualidade é a concorrência com as rolhas sintéticas e vedantes de metal. Com a expansão do gosto pelo vinho no mundo, a indústria da cortiça tem experimentado um crescimento de exportação na casa dos 20%. A expansão do mercado vitivinícola é ao mesmo tempo uma oportunidade e um desafio. É um desafio porque um sobreiro leva 25 anos para dar sua primeira colheita, e o mundo da atualidade tem pressa.  Temos que investir na renovação permanente dos montados de sobro, de modo a aumentar a oferta de cortiça para atender ao crescente mercado de vinhos. Temos ainda que fazer frente a campanhas de marketing internacionais que têm interesse em impor rolhas sintéticas em detrimento da cortiça.

 

 

Quais são os aspectos positivos da indústria de cortiça?

Em primeiro lugar é uma indústria altamente sustentável. Os montados de sobro além de absorverem grandes quantidades de dióxido de carbono, regeneram-se a cada 10 anos e possuem um dos ecossistemas mais ricos do mundo, com mais de 160 espécies de aves e 37 espécies de mamíferos (60% dos mamíferos portugueses e animais em extinção comoo lince ibérico). Cada metro quadrado pode conter mais de 100 espécies de flora.

Além disso, a indústria é um importante empregador no campo, com técnicas tradicionais que são passadas de geração em geração há séculos formando um elemento cultural da identidade de Portugal no mundo. A cortiça é um material natural, de qualidade, sustentável do ponto de vista ambiental e social e, por isso, adiciona valor aos produtos aos quais é associada.

Além disso, a cortiça tem um forte viés de tradição na indústria vinícola, já que a rolha de cortiça possui características físico-químicas, estéticas e sensoriais únicas que apresentam fortes vantagens na vedação de vinhos de guarda. Por suas características únicas, a cortiça permite a passagem de quantidades microscópicas de oxigênio para o interior da garrafa na medida certa, propiciando o desenvolvimento de aromas complexos no vinho.

Estudos científicos demonstram que há compostos positivos presentes na cortiça – tais como aldeídos fenólicos, ácidos e taninos elágicos (também presentes na madeira de carvalho), que podem contribuir para a qualidade sensorial dos vinhos, possibilitando mudanças na composição aromática, as sensações na boca, a cor, enfim, a percepção da qualidade do produto. Dessa forma, a cortiça é o único vedante que também atua como ferramenta à disposição do enólogo no processo de elaboração e melhoria sensorial dos vinhos.

Dentre os aromas que a cortiça pode ajudar a desenvolver temos: creme de baunilha, coco, caramelo, mel, defumado, cera, queijo, verdura, pinho, amêndoa, especiarias, cravinho, madeira, baunilha, citrinos, rosas, floral, cravo, legumes e menta.

 

Adalgisa de Queiroz Vieira e Gabriela Menezes Côrtes, proprietárias da Herdade da Torre

 

“O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”.

 

Como você acha que será o futuro da sua produção?

O futuro da produção será focado em qualidade e inovação. Ou seja, temos que cuidar dos montados de sobro
e renová-los de modo a expandir a produção com qualidade e ainda focar na comunicação para o mercado internacional, de modo a difundir os benefícios e usos da cortiça em diversos setores da economia.

Como na sua opinião Portugal e a língua portuguesa tiveram um efeito positivo no mundo?

Portugal deixou o legado da língua portuguesa nos países de sua colonização. O português é a sexta língua mais falada do mundo, presente nos cinco continentes. A língua portuguesa é um importante fator de integração social
e econômica dos países que a têm como idioma oficial (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste).  A unicidade da língua facilita o intercâmbio de pessoas, bens e serviços nesses países, além de criar uma identidade e intercâmbio científico-culturais que permitam o enriquecimento cultural de cada um desses países.

 

 

Como você descreveria Portugal e o povo português?

Portugal é um país com excelente clima, povo hospitaleiro, gentil e trabalhador, gastronomia de elite e rica tradição cultural. Além disso, seu território apresenta uma geografia diversificada, que, aliada a uma harmônica intervenção humana, nos presenteia com cenários pitorescos e, muitas vezes, inusitados. Por seu passado de explorações globais, é um país que, embora pequeno, é multicultural, com elementos de influência africana, hindu, árabe, brasileira e, obviamente, europeia. Como disse Fernando Pessoa, “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”. Beneficiando-se ainda da qualidade de membro da União Europeia, Portugal possui excelente comércio e infraestrutura de ponta. Não à toa, Portugal está na moda.

 

Fotografia: Vicente de Paulo + Carlos Eduardo Menezes Côrtes + Acervo Adalgisa Vieira