Descreve-nos um dia típico na tua rotina

Levanto-me com o som dos galos a cantar. Desde que me mudei de Berlim para Harare, que ainda mantém um estilo de vida muito rural, reprogramei o meu relógio biológico e organizo a minha rotina diária de acordo com o nascimento e o ocaso do sol. Levanto-me pelas 4.30, alimento as galinhas, os coelhos, os peixes e a nossa cabra, dou um passeio com os meus cães e depois preparo um pequeno-almoço saudável.Temos um grande jardim, por isso há sempre que fazer. Reparar as cercas, regar as plantas, cortar madeira para a lareira e, por vezes, apenas descontrair na rede de descanso. Aproveito o almoço para passar tempo com o meu filho mais novo ou convido amigos. Quando tenho tempo livre adoro ir aos mercados africanos locais onde posso comprar tudo o que preciso – de comida a roupa, ferramentas, madeira e velhos objectos da história do cultivo no Zimbabwe. Normalmente passo as minhas tardes no estúdio que construí recentemente no jardim. Quando a minha esposa chega a casa, cozinhamos juntos e passamos tempo em família com as crianças. No Zimbabwe anoitece muito cedo a maior parte do ano, por isso vejo os animais novamente, a casa fica calma e toda a gente adormece pelas 20.30. Em geral, tenho uma vida muito calma e sem problemas, que faz um bom contraponto com a vida instável, inconstante e acelerada que tinha antes como artista.

Como descreverias o teu trabalho?

É um pouco difícil descrever o meu trabalho aos outros. Quando trabalho numa nova peça não penso em quem a vai ver ou comprar quando terminada. Criar é para mim uma forma de comunicar com os outros, de socializar

Onde vais buscar as tuas influências?

Encontro inspiração em tudo. Música, teatro, vida de rua, religião, propaganda política e, por último, mas não menos importante, em outros artistas como Paulo Kapela e Fernando Alvim.

Quão importante é o trabalho artesanal no teu processo artístico?

Como artista que gosta de experimentar com diferentes meios, não tenho medo de sujar as mãos. Só no trabalho com diferentes materiais e na experimentação de processos diferentes é que atinjo os resultados que quero e, por vezes, surpreendo-me naquilo que consigo adicionar ao meu reportório artístico. Por isso, sim, é definitivamente muito importante.

Explica-me, por favor, o teu processo.

O processo começa na minha mente. Rumino ideias durante semanas, por vezes meses e mesmo anos. Não concretizo todos os meus projectos. Alguns porque a produção é impossível, outros porque foram censurados durante o processo e eram apenas ideias efémeras pelas quais perdi o interesse, mas que podem um dia ressurgir. Depois de aprovar uma ideia, torna-se espontâneo.

“Trabalho muito intuitivamente – vou descobrindo o meu trabalho durante o processo de criação. Talvez possa comparar este processo à arqueologia – nunca estou seguro do que posso ou vou encontrar.”

 

Divides o teu tempo entre Angola e Portugal. Como é que estes dois lugares diferentes te influenciam e ao teu trabalho?

Na verdade eu divido-me entre Angola, Portugal, Alemanha e Zimbabwe. Todos estes países são importantes para mim. É como se fossem diferentes camadas nas minhas telas com colagens. Nova informação pode cobrir a velha mas, ao fim de algum tempo (quando rasgo algumas camadas de papel), partes da velha informação reemergem e ficam visíveis.

Onde te sentes mais em casa?

Sinto-me em casa em qualquer lugar onde me sinta respeitado e bem vindo.

Fotografia: Acervo Yonamine