Mais do que um projecto fotográfico, Somos Brasil documenta também a ancestralidade dos seus indivíduos, com amostras detalhadas do seu ADN e perfil antropológico, com o objectivo de convergir arte e ciência para descrever um país e o seu povo. O livro do projecto ganhou, recentemente, o prémio D&AD em Londres e pode ser encomendado à galeria de Lyon, através do email ml@theglassworks.co.uk. Uma imagem activada através de uma aplicação sonora está também disponível para dispositivos Apple e Android.

Fala-nos um pouco sobre ti e o teu trabalho, por favor.

Quem sou eu, onde estamos, e o que podemos ser juntos? Seja qual for a forma de se explorar este repto, a resposta irá sempre incidir na comunicação de algo poderoso sobre a condição humana. Quer seja através de paisagens hiper-reais construídas ou de retratos íntimos, o meu trabalho esforça-se por tratar o seu público como um parceiro activo e inteligente nesta jornada. A minha crença na primazia da ideia conduz o processo de pré-visualização: a procura em definir uma voz e objectivo de trabalho previamente, de forma a aumentar a legitimidade do resultado final. Este foco é agudizado pela percepção de que o mundo tem mais nuances e sítios extraordinários do que muitos de nós testemunham. Crio assim novas linguagens visuais, construídas por camadas de informação dentro das quais verdades maiores podem ser comunicadas. Os resultados recorrem, muitas vezes, ao familiar: imagens, som e biologia, que juntas potenciam um espelho para a multitude de padrões que explicam a vontade de os humanos se engajarem, adaptarem e evoluírem em sociedade. Em todo o meu trabalho espero inspirar outro nível de diálogo sobre a beleza e desafio da vida, assim como o nosso papel em o manter.

Como descreverias o teu estilo?

Não sou fã de rótulos em geral mas se forçasse uma resposta, descreveria-me como um artista multimédia.

Onde vais buscar a tua inspiração?

Sou sempre inspirado pelo extraordinário empenho e resiliência dos humanos, quando colocados na fronteira da fragilidade da existência.

Qual a atracção que exerce sobre ti o Brasil, pessoalmente e no teu trabalho?

Sou casado com a Bel, uma brasileira nativa, e temos duas crianças ‘Brasilinglesas’,que apesar de terem nascido e estudado em Londres se definem como brasileiras. Quando lhes perguntamos ‘Quem são vocês?, respondem, sem hesitação, ‘Nós somos brasileiros.’

Esta dicotomia entre a minha identidade britânica e a deles inspirou a origem da procura pela compreensão da sua nação. Quem são estas pessoas que nasceram de uma mistura inebriante de culturas: indígenas, portuguesas, africanas e numerosas outras nacionalidades? E o que fez com que aqueles que conheço, em oposição a muitos norte-americanos, se identifiquem, simplesmente, como brasileiros, com pouca referência aos seus antepassados étnicos ou geográficos. Porque é que uma experiência cultural resulta numa classificação conjunta clara, enquanto a outra procura, incessantemente, por reconhecimento nos seus antepassados. Será que esta aparente nova nação, com um grande sentimento de identificação, procurou a sua própria voz em si e não numa vida passada? Ou terão havido outras formas mais subtis de desvendar a história? Foram estas as questões na origem de Somos Brasil.

 

Qual o pensamento por detrás do projecto Somos Brasil?

Através da combinação entre o visual, o falado e as identidades biológicas de 140 indivíduos num projecto, estávamos à procura de lançar uma perspectiva mais clara sobre a realidade do extraordinário capital humano do Brasil, na entrada no século XXI.

Como escolheste os teus sujeitos?

O processo de nomeação durou 6 meses, durante o qual lançamos um apelo a um conjunto de 200 activistas sociais e jornalistas, que seleccionaram, por sua vez, os indivíduos que estão presentes no livro e na exposição. Foi um processo de selecção realizado apenas por brasileiros.

O que esperas que o teu público retire deste projecto e do teu trabalho em geral?

 Que seja inspirado pela nossa humanidade comum.

No que estás a trabalhar, actualmente?

Estou prestes a editar Somos Brasil na Ásia e na Europa. Para além desse projecto, estamos também a completar uma grande comissão para o Instituto Smithsoniano em Washington DC e a preparar uma série de novas exposições com os meus projectos de ‘Arte Científica’ no Reino Unido.

E o que vem aí?

Há conversas no sentido de trabalhar numa grande comissão, que abrangerá toda a América Latina e que irá focar na viagem extraordinária que muitos fizeram desde África até à América.

Acompanhem-me em: marcuslyon.com

Fotografia: Arquivo Marcus Lyon